Começando em Cibersegurança
Parte 1: Introdução
Você sabe dizer o que é cibersegurança com as suas palavras? Sabe quais são as subáreas e o que os profissionais fazem?
Cibersegurança ou Segurança da Informação?
Primeiro, vamos começar entendendo que segurança da informação e cibersegurança são termos comumente usados como sinônimos, mas são diferentes. Segurança da informação é abrangente, inclui a segurança dos dados de uma empresa, inclusive de forma física. Cibersegurança (ou segurança cibernética) é um ramo de segurança da informação, esse sim focado no contexto digital. Isso importa muito? Não tanto, pois são usados no mesmo sentido no dia a dia. Saber disso te ajuda a entender que você pode pesquisar usando os dois termos sem medo em buscas de emprego.
Tríade de Segurança da Informação
Como acontece em qualquer área de TI, segurança da informação é dividida em subáreas, e todas elas existem com o objetivo de assegurar o que chamamos de tríade CIA (CID em pt-BR, mas ninguém chama assim) de segurança da informação: confidentiality, integrity e availability (confidencialidade, integridade e disponibilidade).
- Confidencialidade: garante que a informação seja acessada apenas por pessoas autorizadas.
- Integridade: garante que a informação seja mantida de forma correta e completa, sem alterações não autorizadas.
- Disponibilidade: garante que a informação esteja disponível para acesso quando necessário.
Perguntas rápidas:
Um hacker consegue acessar os dados de uma empresa e alterá-los. Qual princípio da tríade foi violado?
Resposta: IntegridadeUm funcionário consegue acessar dados de clientes que não deveria. Qual princípio da tríade foi violado?
Resposta: ConfidencialidadeUm cliente percebe que consegue baixar comprovantes de outros clientes. Qual princípio da tríade foi violado?
Resposta: ConfidencialidadeUm servidor de uma empresa fica fora do ar por 3 dias. Qual princípio da tríade foi violado?
Resposta: DisponibilidadeQuando estudamos essa pirâmide, logo aprendemos que sua base está pautada em outros três pilares: pessoas, processos e tecnologia. A segurança da informação não é apenas sobre tecnologia, mas também sobre como as pessoas interagem com ela e os processos que garantem sua eficácia.
Empresas são organismos complexos, principalmente considerando que dificilmente elas iniciam suas operações com a segurança da informação como prioridade. Por isso, é comum que profissionais de cibersegurança encontrem desafios relacionados à cultura organizacional, resistência a mudanças e falta de conscientização sobre a importância da segurança. São esses desafios que reforçam a necessidade desses pilares.
- Não adianta ter a melhor tecnologia se as pessoas que a utilizam não estão cientes dos riscos e das melhores práticas.
- Não adianta ter processos bem definidos se a tecnologia não é capaz de suportá-los ou se as pessoas não os seguem corretamente.
- Não adianta ter pessoas bem treinadas se não há processos claros e tecnologia adequada para apoiar suas ações.
Sem esses pilares, a tríade de segurança da informação não pode ser efetivamente protegida. Portanto, iniciar na área vai além dos desafios técnicos, do conhecimento de ferramentas ou da vontade de quebrar sistemas. É necessário compreender o contexto em que a segurança da informação se insere, incluindo aspectos humanos, organizacionais e tecnológicos.
Times de Cibersegurança
Existem diferentes times de cibersegurança dentro de uma empresa ou contratados por meio de consultorias. Cada time tem um foco específico, mas todos trabalham juntos para proteger a informação e os sistemas da organização. Majoritariamente, você vai encontrar bastante menção a dois deles:
-
Blue Team: também é conhecido como “segurança defensiva”. É o Blue Team que arquiteta, toma decisões, implementa ferramentas de segurança, impõe a conformidade, e, claro, defende quando ataques ocorrem (principalmente, evita que ocorram). Também faz resposta a incidentes e forense. Como não é retratado em filmes como o anti-herói encapuzado, não é uma área pela qual o iniciante sente grande empolgação.
-
Red Team: também conhecido como “segurança ofensiva”, “pentest” ou “hacking ético”. É quem, sob contrato, testa a segurança de uma empresa para medir a sua maturidade. Esses testes podem ocorrer com o conhecimento de todo o time de segurança do cliente (white/gray box), ou somente com a anuência do contratante, mas não do time todo (black box). O Red Team é muito importante como um olhar fresco, tendo em vista que quem projeta costuma não pensar em todas as alternativas em que a regra de negócio pode ser quebrada, fora as falhas técnicas que costumam passar despercebidas (mesmo que minimizadas quando existe processo de DevSecOps).
É importante mencionar que tarefas de um time ou outro, como pentests, podem ser realizadas por times mais abrangentes, como AppSec.
Algum time é mais importante do que o outro? Absolutamente todos são importantes, mas atribuições geralmente vinculadas à segurança defensiva são imprescindíveis, pois a segurança de uma empresa não pode depender apenas de testes periódicos. Por outro lado, a segurança ofensiva é essencial para identificar vulnerabilidades que podem passar despercebidas, ajudando tanto a segurança defensiva, quanto os desenvolvedores a melhorar a segurança dos sistemas.
Lição de casa para essa primeira parte
Ler sobre:
Pesquisar sobre:
- Quais são as áreas dentro de Blue Team?
- Quais são as áreas dentro de Red Team?
- Quais são os outros times além de Blue Team e Red Team?
- O que é “regra de negócio” e como se diferencia de “falhas técnicas”?
- Qualquer termo que não tenha entendido nesse texto ou nos textos acessados.
Parte 2: Aprendendo a pesquisar e a perguntar
Uma das coisas que vem de brinde com a carreira de TI, e em cibersegurança não é diferente, é a habilidade de pesquisar. Qualquer profissional passa horas a fio pesquisando como implementar, consertar, ou quebrar alguma coisa (mesmo com a IA).
Cibersegurança é essencialmente uma área investigativa. Você investiga pra proteger, investiga pra atacar.
É, portanto, uma área para curiosos.
Além disso, a habilidade de pesquisar permite que a pessoa tenha mais proatividade, uma das posturas mais admiradas, seja no trabalho ou fora dele.
Por isso, é importante que você aprenda a pesquisar de forma eficiente, como, por exemplo, utilizando Google Dorks, que são técnicas de pesquisa avançada no Google (também implementadas em outros mecanismos de busca) para encontrar informações específicas.
Entretanto, de nada adianta saber utilizar ferramentas de pesquisa se você não sabe como perguntar. Perguntar de forma clara e objetiva é uma habilidade que pode ser desenvolvida com prática.
Ok. Agora você sabe pesquisar, fazer perguntas e persistir na sua pesquisa do seu tópico de interesse. E agora?
Agora o céu é o limite.
Você pode, por exemplo, ir no LinkedIn usar dorks na busca de lá pra encontrar vagas em cibersegurança, e checar o que é pedido pelas empresas nas mais diversas áreas de sec.
Lição de casa para a parte 2:
- Pesquisar vagas de segurança (seja no LinkedIn ou fora dele) e checar o que as vagas pedem.
- Pedir para a IA criar pesquisas com dorks para te ajudar a encontrar vagas em cibersegurança (pode especificar pra uma subárea desejada dentro de segurança). Você vai copiar o que ela encontrar e colar nas buscas
- Pesquisar pelos termos desconhecidos nas vagas encontradas
- Avaliar o que mais te interessa
Parte 3: Enfim, como começar?
Finalmente, a tão aguardada pergunta:
Mas como raios eu começo?
Aqui, vale mencionar a importância da boa compreensão do inglês. Não é necessário saber falar (apesar de ser uma vantagem), mas, ao menos, compreender. A maior parte dos cursos e termos são em inglês.
Antes de vasculhar os diversos cursos disponíveis, vale ler esse post aqui do Fernando Mercês, tem muita informação:
Talvez você já saiba, mas redes é um dos pilares de segurança da informação, como você também pode checar no excelente site roadmap.sh:
Nesse site é possível “checklistar” tudo o que for aprendendo. Ele também te direciona pra alguns links interessantes onde você pode aprender sobre o tópico.
Caso não reconheça algum termo, o que é super normal, use o que aprendeu na parte 2 e pesquise bastante.
Agora, nada é tão inicialmente completo (se tratando de cursos de cybersecurity) quanto os cursos da Cisco, que são gratuitos:
No link acima, é muito recomendado que faça ao menos o Introduction to Cybersecurity e o Cybersecurity Essentials. Ao terminar, saberá o que responder sobre redes em uma entrevista direcionada a estagiários ou até mesmo Júnior I.
Sobre livros, o Mercês já indicou alguns, mas também tem o bom e velho Tanenbaum, que escreveu alguns dos mais essenciais em redes e sistemas operacionais.
Também é recomendado que aprenda virtualização e faça uma rede emulada (ou, se tiver dispositivos em casa, faça o seu laboratório caseiro!).
Depois, é interessante que aprenda alguma linguagem de programação e saiba fazer um CRUD, um site simples com algumas áreas e formulários. Pesquise e entenda como injeções (XSS, SQL) ocorrem, e como mitigar.
Os sites abaixo são excelentes para entender sobre vulnerabilidades web e outros tópicos:
- portswigger.net/web-security - PortSwigger é dona do Burp Suite. Os laboratórios são gratuitos, focados em vulns web.
- tryhackme.com - THM tem salas gratuitas, mas é majoritariamente pago. Tem desconto para estudantes (que possuam e-mail estudantil). Labs diversos, não apenas web. Salas para ambos Red Team e Blue Team.
- hackthebox.com - As trilhas do HTB são excelentes. Não apenas web. Focado em Red Team.
- letsdefend.io - Focado em Blue Team.
E existem também roadmaps diversos, além do já mencionado roadmap.sh:
- github.com/isaqueprofeta/cybersec-path
- meninadecybersec.notion.site/Iniciando-em-Cybersecurity-e-Seguran-a-da-Informa-o-cfe02d5ac2b74576b315083387894890
- wiki-cantinho-da-offsec.gitbook.io/roadmap
- github.com/arthurspk/guiadecybersecurity
- github.com/gracenolan/Notes
Ok, viu tudo isso e ainda se pergunta como começar?
Com um conhecimento básico, você pode pesquisar por vagas (como aprendido na parte 2), especialmente de SOC, mas também outras do seu interesse. SOC é a área em sec que mais tem vagas entry level, por isso costuma ser o foco de quem está tentando entrar diretamente.
Outra estratégia é entrar em uma empresa que tenha área de sec, mas em outro cargo, como suporte ou infra, e depois tentar migrar para a área desejada.
Para quem já tem anos de carreira em outra área e não pode diminuir o salário entrando como estagiário ou júnior, a situação é mais delicada. Seria interessante conseguir um QI (Quem Indica). Outra alternativa é tirar certificações requisitadas, mas tenha em mente que elas são caras e não são garantia de que você vai conseguir se realocar rapidamente.
Para todos: Também procurem sobre currículos ATS, usem muitas palavras-chave no LinkedIn e no currículo.
Sobre faculdade: Em resumo, ajuda a passar do filtro do RH. Pra estagiar, você precisa ser aluno de uma instituição reconhecida pelo MEC, caso contrário, pode se candidatar apenas às vagas normais (júnior e adiante).
Para quem está na faculdade ou está começando uma: procure estágio assim que possível. Não espere se sentir preparado, não deixe para a última hora, vá na cara e na coragem. O mercado quer saber de experiência. Se formar sem estágio é um erro gravíssimo. Ninguém quer saber se você priorizou a faculdade e tirou 10.
Para quem mora em locais isolados: Pode ser mais difícil conseguir trabalho, dado que vagas de sec se concentram em locais industriais ou tecnológicos, e as vagas remotas são muito disputadas. Analise muito bem a sua situação e faça planos sólidos.
No mais, tentem. Não esperem o sentimento de estar preparado. Ele nunca vem.
Agora é com você. A sua lição de casa é pesquisar tudo, absolutamente tudo o que te interessar nesses links. :)